Minha irmã sempre dizia que eu não ouviria Heavy Metal até o fim dos meus dias. Ela sabia o que a esperava: ou eu fechava a porta do quarto na cara dela e deixava James Hetfield mostrar que viera pra ficar, ou ria dum sorrisinho escasso e debochado. Pois é, o estourar de tímpanos faria sempre, sempre parte da minha quase agitada vida.
Pus então, nesta sexta-feira de junho de 2007 que Deus abençoou, uma bermuda de adulta, uma camisa de adulta, a coragem de sair somente penteando meus cabelos com os dedos. Abri a porta pro sol entrar, direção: Prefeitura. Sorrindo pros transeuntes, sorrindo pra vida, tão piegas de mim mesma, tão cheia de olhinhos dos meus 13 anos de Metallica.
- Desculpe, mas o seu visto ainda não pode ser renovado. Serão precisos 3 meses de espera.
- Euh, mas o senhor bem disse 1 mês.
- 1 mês se você se dirigir ao guichê. Enviar por carta leva 3 meses.
- Mas o guichê fica a 80km.
- Pois é.
Bom, saio eu, olhinhos dos meus 16 anos de insegurança, quase tropeço na calçada em reforma. O prefeito decidiu que, para trazer os jovens de volta ao vilarejo, é necessário reformar as calçadas. Talvez os ossos destes sejam mais resistentes às tropeçadas e às reclamações dos pedreiros.
- Olha por onde anda, menina.
Menina. E eu olho mesmo, o senhor bem deve ter razão. Eu devo melhor olhar por onde ando.
Pois bem, direção Farmácia, hora de pegar os resultados daquele bendito exame em que a enfermeira quase me mandou ir passear pras bandas de Raul Seixas.
"Bom, Bom, Madame Marc - ele bem disse Madame e os olhinhos se acenderam em dez anos de idade - aqui estão os exames, vejamos bem...er... Nada de inquietante - olhos de holofote, olhos da vida sempre amparada e do tudo está bem quando acaba bem...
"Menos mal..."
"Você trouxe o justificativo do plano de saúde?"
"Euh, eu devo ter esquecido em casa. Precisa mesmo?"
"Precisa. Ou você vai ter de pagar a totalidade do exame".
E a irresponsabilidade afunda meus ombros. Vou em casa buscar o infeliz do justificativo, passo acelerado, já nem me importo com esse maldito sol escaldante, ou com esses velhinhos que andam a passo de tartaruga, rindo Deus sabe de que. Porque nada, absolutamente NADA tem a menor graça nessa cidade. Emili, 130 anos, drogada e prostituída.
Mais calma, retorno com o documento e colo os olhos no exame. Como assim, nada de inquietante? Como assim, Bial? Meu colesterol no limite, NO LIMITE, e esse Monsieur dizendo que não há nada de inquietante?
"Tu vai ver, Emili, daqui a pouco tu cansa dessas musicas."
Bem como ela me disse que eu ainda pagaria pelos ketchups com pizza e pelos refrigerantes às 7h da matina, eu entrei em casa, 21 anos de idade, sentei no sofá e ouvi Chico Buarque.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
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Um comentário:
Hehehe tentando enrolar todo mundo ai no vilarejo ne??? ta achando q francês é besta é? quando vc criar a vaquinha, vc vai ver sua alimentação melhorar. n vai mais ficar colocando catchup nas coisas nem sofrendo de colesterol!!
meiron
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